Garotas Makers IV – parte 3

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Garotas Makers IV – parte 3

Olá pessoal! É muito gratificante falar de mulheres que mudaram o espaço que estão através da tecnologia, que são cheias de vontade de transformar o mundo. Hoje, falaremos de uma mulher que tem muito orgulho de suas raízes na zona rural e muito orgulho em dizer que conquistou um espaço no mundo da tecnologia, como docente e mentora de projetos.

Jamille Cerqueira tem 26 anos, é natural de Inhambupe e atualmente mora em Alagoinhas, ambas na Bahia. É formada em Sistemas de Informação pela Faculdade Santíssimo Sacramento (FSSS), mestranda em Computação Aplicada na UEFS-Universidade Estadual de Feira de Santana, tendo como linha de pesquisa Instrumentação para o Estudo do Potencial de ensolação no interior da Bahia e professora de Códigos Digitais para crianças e adolescentes no Colégio Cenecista de Catu-BA.

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Figura 1 – Jamille Cerqueira (Fonte: Arquivo pessoal Jamile Cerqueira)

Jamille conta que tem muito orgulho de suas raízes, morou até os 22 anos em sua cidade natal e entrar para a área de TI foi um grande desafio: “…foi uma quebra total de paradigmas, onde minha família nem tinha noção do que se tratava, logo no primeiro dia que fui dizer para minha mãe que tinha passado no vestibular toda feliz ela me disse: ‘Tu vai fazer esse curso para trabalhar onde mesmo?’, me jogou um verdadeiro balde de água fria. Daí então só me deu mais forças para continuar no meu objetivo…”. Isto lhe impulsionou a realizar seus sonhos e objetivos, sem se importar com opinião alheia.

Sua primeira experiência durante a graduação foi a ida a Campus Party Brasil, em 2013. Ela conta que ganhou o ingresso, mas não tinha condições financeiras de ir para São Paulo, porém ela estava determinada em conseguir estar no evento, que sempre teve vontade de ir. Jamille começou uma busca de cidades próximas na Bahia onde sairiam caravanas para o evento, pois não tinha como arcar com custos de passagem aérea: “…entrei em contato com o líder da caravana e automaticamente ele consegue uma vaga para mim, chego à faculdade com a novidade: ‘Ganhei um ingresso para Campus Party, de Caravana’. Meus colegas disseram: ‘Você está louca, sair daqui de ônibus com pessoas que você nunca viu nada vida sozinha para uma cidade que nunca foi antes’. Apenas respondi: ‘Tudo tem sua primeira vez’. E foi a experiência mais fantástica de toda a minha vida, fui a primeira aluna do Curso de Sistemas de Informação da minha faculdade participar de um evento como esse…”

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Figura 2 – Jamille na Campus Party 2013 (Fonte: Arquivo pessoal Jamille Cerqueira)

Jamille voltou do evento extremamente empolgada e com muitas novidades. Seus colegas se admiraram com sua coragem. Após o retorno da Campus Party 2013, Jamille montou um grupo de estudos sobre Arduino, Automação e Robótica. Como monitora, ela iniciou com uma turma de 30 alunos e finalizou com 20, uma marca histórica.

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Figura 3 – Colegas do grupo de estudos sobre Arduino montado por Jamille (Fonte: Arquivo pessoal Jamille Cerqueira)

Em encontros do grupo montado por ela, sempre falava das experiências vividas na edição 2013 da Campus Party e em 2014, conseguiu levar 16 de seus colegas ao evento pela primeira vez: “…a felicidade em saber que você motivou essas pessoas a participar de algo não tem recompensa, os encontros com essa turma criou laços fortes que nós unimos até hoje”.

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Figura 4 – Jamille e ceolgas do grupo de estudos sobre Arduino e Robótica na Campus Party 2014 (Fonte: Arquivo pessoal Jamille Cerqueira)

Jamille iniciou usa carreira profissional sempre em área acadêmica. Em seu primeiro ano de faculdade, trabalhou em um projeto de inclusão digital levar para escolas públicas do Ensino Fundamental I a chamada informática básica. Este projeto foi realizado na cidade de Alagoinhas, Bahia, e passou por várias mudanças de perfil. Inicialmente, o foco eram crianças e adolescentes carentes passarem pela inclusão digital. Em segundo momento, este projeto focou no uso da Matemática e Português juntamente com Informática, e o perfil dos profissionais selecionados eram relacionados à Pedagogia. Ela precisou passar pelo processo seletivo e foi aprovada! O quadro de funcionários, que antes eram majoritariamente de TI, passou ter perfil mais de Pedagogia. Jamille conta: “…era tudo muito complicado. A galera de Pedagogia trabalhando com informática. E eu fui a única da área de TI que passei 3 anos no projeto, o trabalho era gratificante, saber que você contribui para a educação digital de crianças que nunca tinham manuseado um computador.”

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Figura 5 – Crianças no Projeto de Inclusão Digital em Alagoinhas, Bahia (Fonte: Arquivo pessoal Jamille Cerqueira)

O projeto, chamado Incluir Digital, foi implantado em várias escolas da rede municipal de Alagoinhas e Jamille trabalhou em cerca de quatro escolas, em períodos de seis meses a um ano em cada. Quando Jamille saiu do projeto, recebeu o convite para trabalhar no Colégio Cenecista de Catu, Bahia, onde trabalha atualmente. É uma unidade particular de ensino porém filantrópica, os alunos são bolsistas. Apesar da contratação depender do profissional possuir ensino superior completo, Jamille foi aprovada na entrevista antes do término da graduação, sendo a única professora do quadro que não possuía graduação completa.

Jamille teve ótimos resultados durante a graduação. Sua turma era a segunda do curso, enquanto a primeira possuía apenas nove alunos. Como a cidade de Alagoinhas não tinha TI como ‘tradição’, ela começou a realizar eventos em sua faculdade para atrair gente: “…na cidade onde moro o mercado para TI é bem fraco então eu tinha que fazer alguma coisa para mostrar para a sociedade que Alagoinhas e região também tem cursos de TI e profissionais, então comecei a organizar eventos internos, promovendo palestras, convidando amigos de outras cidades e e faculdades para trazer um pouco das suas experiências para nós. Eu sempre fui do tipo que estou em todo evento de TI que tem na região e com a minha ‘cara de pau’ acabo conhecendo muita gente, e busco tirar bons proveitos dessas amizades que o diga Sileide Campos e Desiree Santos, afinal de contas nada melhor do que agregar seu networking”. Lembrando que Sileide Campos já teve sua história contada na 2ª temporada na Série – por sinal, incrível! (http://innovation.embarcados.com.br/garotas-makers-ii-parte-3/)

A mobilização de Jamille em relação aos eventos da faculdade fez com que seus colegas ampliassem a visão da área de TI, além de conquistar amizades, confiança e respeito de seus professores. O coordenador, Fabrício Faro, lhe deu muito apoio em suas ideias, uma delas o grupo de estudo com Arduino, Python, entre outros. Jamille organizou na faculdade o Primeiro Encontro de Mulheres na Tecnologia da Bahia e região, contando com o apoio da ThoughtWorks, que enviou Claudia Melo para o evento.

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Figura 6 – Semana da Mulher na Faculdade Santíssimo Sacramento – FSSS (Fonte: Arquivo pessoal Jamille Cerqueira)

A organização de eventos é um hobby para Jamille, que inclusive ajudava amigos de outras instituições. Mas seu amigo, Fernando Moreira, lhe disse que era hora de começar a palestrar também: “…porém chegou um dia que um grande amigo, um irmão que o meio de TI me deu, Fernando Moreira, chegou para mim e disse: ‘Está na hora de sair de trás dos bastidores e começar a palestrar também’. Eu tinha vontade mas a timidez, o medo de errar me ocultava. Até chegar um dia que meu coordenador me pediu que o ajudasse a organizar um evento em um instituto que trabalha então pedir uma oportunidade para falar sobre Internet das Coisas, nunca tinha falado do tema, mas era algo que gosto e o público na época não tinha tanto conhecimento sobre o assunto, resumindo a palestra não foi a melhor mas fiquei feliz…”

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Figura 7 – Jamille palestrando na Semana Acadêmica da FSSS (Fonte: Arquivo pessoal Jamille Cerqueira)

Começaram as oportunidades de ministrar palestras em eventos da região, até Jamille ir ao 3º Encontro nacional das Mulheres na Tecnologia, em 2015, em Goiás. A palestra foi sobre seu trabalho de conclusão de curso: Dispositivo Eletrônico para auxiliar deficiente visual em sua locomoção abordando a Tecnologia Assistiva e Arduino.

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Figura 8 – Jamille no 3º Encontro Nacional da Mulheres na Tecnologia em Goiânia (Fonte: Arquivo pessoal Jamille Cerqueira)

Jamille ficou encantada por ser uma das duas representantes da Bahia no evento, além de ficar surpresa com o número de expectadores em sua palestra: “…participar deste evento foi algo inusitado, satisfatório e principalmente por saber que ali só tinha duas baianas representando meu estado, a sala da minha palestra ficou lotada, nunca imaginei que pudesse falar para tanta gente..”. Além deste evento, Jamille palestrou na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia do IFBA, em dois Campus, nas cidades de Simões Filho e Santo Amaro.

Um dos trabalhos mais recentes foi a mentoria de projeto do Technovation Brasil 2016, em Salvador. Jamille explica: “…o programa tem como objetivo inserir adolescente de escolas públicas no meio da Tecnologia e empreendedorismos. O programa acontece em vários países, as equipes tinha a tarefa em desenvolver um app através da plataforma App Inventor que solucionasse um problema da sociedade em questão (Salvador).” Uma das equipes que Jamille foi mentora ficou entre os quatro melhores entre as equipes do Brasil. Orgulhosa do desempenho, ela diz: “Gratificante, as participantes não tinham familiaridade com desenvolvimento, nunca tinham ouvido falar sobre o programa, principalmente com a plataforma e poder vivenciar toda a superação das equipes e se classificar para semi finais não há premio maior”.

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Figura 9 – Jamille e equipe de meninas na Technovation 2016 em Salvador (Fonte: Arquivo pessoal Jamille Cerqueira)

Atualmente, Jamille se dedica a escrever um projeto, juntamente com Brenda Costa, de Salvador-BA, para promover aulas de programação e empreendedorismo para menina carentes de Salvador e região.

Jamille se orgulha muito de sua trajetória, como pessoa e profissional: “…Hoje eu sou imensamente orgulhosa da pessoa, profissional que estou me transformando, venho conquistando meu espaço sem denegrir minha imagem e dentro da minha base familiar, realizando dos os meus sonhos de forma gradativa…”. E ainda há muito por vir! Para finalizar, ela deixa sua mensagem, especialmente para as mulheres: “…o grande segredo de tudo isso é ter foco, sonhar e acima de tudo acreditar que você é capaz. Não permita que alguém aposte algo em você, seja o seu principal investidor. Não se permita a chegar ao conformismo sempre está insatisfeito pois assim você chegar ao sucesso. E não esqueçam precisamos unir as nossas forças no mercado de TI, pois juntas com certeza faremos toda a diferença.”

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Figura 10 – Jamille e um robô, numa oficina da Roadsec (Fonte: Arquivo pessoal Jamille Cerqueira)

Essa baiana é ‘porreta’! É gratificante para mim conhecer e escrever histórias de superação, de garra e vitórias como a de Jamille. Vimos que por mais que tentem nos desanimar, mesmo família ou amigos, devemos persistir nos nossos objetivos. Ela promoveu uma transformação em sua região, fazendo que sua faculdade em Alagoinhas tivesse eventos sobre TI e atraindo cada vez mais pessoas para a área de tecnologia.

Você ficou com vontade de ingressar num curso de tecnologia? Promover eventos em sua faculdade ou escola ou até mesmo trabalho? Ou de palestrar sobre projetos que você mesmo desenvolveu? Ou ainda criar grupos de estudos sobre Arduino e robótica? Espero que a história de Jamille tenha motivado você, sendo da área de tecnologia ou não, a ser parte deste movimento maker, a fazer diferença onde está, a ampliar cada vez mais seu espaço!

Aguardem que novas histórias de mulheres na tecnologia estão vindo por aí, aqui na série Garotas Makers, no Embarcados Innovation. Aguardem!

By | 2017-01-27T23:08:00+00:00 agosto 1st, 2016|Artigos|0 Comments

About the Author:

Mestranda em Automação e Controle de Processos, Engenheira de Controle e Automação, Técnica em Automação Industrial, ambos pelo IFSP. Atualmente trabalha como Montadora na Tudela Indústria. Pesquisadora no LABORE (Laboratório de Robótica e Reabilitação do IFSP). Hobbista e Maker, se interessou por Arduino desde 2013, e realizou projetos na área de Wearables voltados para entretenimento. Já realizou palestras e mini cursos em eventos de IoT, Arduino e Tecnologia, no RJ, PE, SP, DF, RS, CE, SC e GO. Articulista do Portal Embarcados, redige artigos sobre Arduino e mulheres na tecnologia. Fã de Angry Birds :D

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