Garotas Makers II – Parte 3

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Garotas Makers II – Parte 3

Prosseguindo com a série Garotas Makers, hoje temos uma história de superação. Ao longo desta série, vimos muitas garotas que iniciaram suas trajetórias makers que tiveram incentivo de seus pais. Não foi o caso da Sileide, a maker baiana com uma história pra lá de interessante!

Sileide Santana Campos tem 25 anos, nasceu e mora em Salvador-BA, estudante de Engenharia de Computação e Engenharia de Controle e Automação na Faculdade Área 1.

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Figura 1 – Sileide Campos (Fonte: Arquivo Pessoal Sileide Campos)

Aí você se perguntou (assim como eu, quando recebi a história): duas graduações? Como? Sim, ela estuda na mesma instituição, neste semestre só está cursando o 6º semestre Controle e Automação, e no próximo prosseguirá com último semestre em Computação para concluir o curso.

Na sua infância, Sileide observava seu pai trabalhando com eletrônica e envolvido com consertos de equipamentos. Isto despertou seu interesse em pegar algumas das peças espalhadas pela garagem e fazer seus próprios brinquedos. Um de seus itens favoritos eram os motores, que a possibilitava de construir carrinhos com pilhas e garrafas pet. Porém, isso não trazia satisfação do seu pai: “E com isso, toda a minha infância/adolescência girou em torno de transformar coisas e mexer muito com todas as ferramentas do meu pai, coisa que ele não gostava e me proibia, muitas vezes”.

Devido à interação com brinquedos eletrônicos, rádios e computadores, Sileide realizou um curso de Manutenção de Micros. Durante o Ensino Médio, ela foi selecionada para realizar um curso de programação com Java Desktop, e fez seu primeiro sistema.

Em sua primeira visita à UNEB (Universidade do Estado da Bahia), ela viu diversos robôs, e um desses ela replicou em sua casa: “..o ‘robô’ era composto por uma escova de lavar roupa, pequena, um motor vibratório de celular e uma bateria. A junção de toda essa experiência despertou meu lado maker, meu lado engenheira, pois é simplesmente fantástico fazer um sistema funcionar, fazer uma máquina funcionar e é incrível quando se é capaz de criar algo que melhore a vida das pessoas”.

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Figura 2 – Sileide fazendo seu primeiro robô, em 2011 (Fonte: Arquivo pessoal Sileide Campos)

A partir disto, ela decidiu que cursaria Engenharia, porém a primeira opção para escolha da graduação foi Desenvolvimento de Sistemas. Ela passou neste curso, porém no 2º Semestre foi convidada a cursar Engenharia da Computação com bolsa 100% gratuita na Faculdade Área 1.

Durante a graduação, ela desenvolveu projetos relacionados à robótica, para competições internas na faculdade.Ela ficou na 3ª colocação com um robô sumô e participou da Campus Party 2013, onde garantiu o primeiro lugar com um robô mini para competição de corrida.

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Figura 3 – Sileide Campos, na premiação da Campus Party 2013 (Fonte: Arquivo Pessoal Sileide Campos)

Sileide passou por um grande processo de aprendizagem para desenvolvimento do robô, pois não havia aprendido sobre isto durante a graduação: “Foi preciso entender todo processo de criação do robô, entender o funcionamento do Arduino, entender o que era uma ponte-H e como a mesma funcionava, o que me levou a fazer inúmeras Ponte-H para melhorar o desempenho, ler datasheets para realmente entender como algumas coisas funcionavam…”.

Uma parte muito legal foi quando Sileide pode se equilibrar em cima do robô, pois ela pesava menos de 50kg: “…a melhor parte era quando eu tentava me equilibrar em cima do robô e andar nele como se o mesmo fosse uma hoverboard, pois eu pesava um pouco menos de 50 kg, tornando a brincadeira possível!”

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Figura 4 – Sileide desenvolvendo robô na Campus Party 2013 (Fonte: Arquivo Pessoal Sildeide Campos)

Sua participação na competição de robótica na Campus Party 2013 foi por iniciativa própria. Ela encontrou um grupo de rapazes realizando montagens e perguntou o objetivo. Sabendo que se tratava de uma competição, ela foi a procura da organização do evento, mas os mesmos informaram que as inscrições se encerraram dois dias antes e não haviam mais peças para montagem. Por insistência de Sileide, eles mostraram que havia uma garota que estava inscrita e sem condições de competir, por ter queimado os motores de seu robô.

Nisto, Sileide conheceu a Desiree Santos, que auxiliou no desenvolvimento de seu robô para competição, que o fez de sexta para sábado. E mesmo com tempo ‘apertado’ venceu a competição.

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Figura 5 – Desiree Santos e Sileide, com robô vencedor da competição (Fonte: Arquivo Pessoal Sileide Campos)

Mas nem tudo são ‘flores’…Sileide teve problemas para terminar seu segundo robô sumô devido à falta de recursos, o qual não prosseguiu para a fase seguinte na competição. Também sofreu alguns acidentes, e relata o mais grave: “…sendo o mais grave deles, o de cortar meu dedo com a tico tico; a dor era tanta que eu não consegui evitar o choro (Faculdade, onde filho chora e mão não vê kkk)”.

Em 2014, Sileide participou da Campus Party Recife, com a ideia de um robô explorador, inspirado num acidente que ocorreu em Salvador: “A ideia do projeto surgiu devido a um acidente que aconteceu em Salvador, em que operários estavam fazendo manutenção em uma rede subterrânea e ao se deslocarem para solucionar o problema foram eletrocutados e morreram devido a falta de segurança”. O robô era composto de um Raspberry Pi, que fazia a leitura dos sensores por rede Ethernet, explorando uma área subterrânea com auxílio de uma câmera IP. Quem a ensinou usar o Raspberry Pi foi  Alessander Goulart.

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Figura 6 – Apresentação na Campus Party Recife 2014 (Fonte: Arquivo Pessoal Sileide Campos)

Sileide apresentou-se em palestras no espaço CESAR (em Recife, PE), na Faculdade Santissimo Sacramento (Alagoinhas, interior da Bahia) e também foi juíza na FLL – FIRST LEGO League, torneio Internacional de robótica do Sesi com Lego (em Salvador, BA).

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Figura 7 – Sileide palestrando em Alagoinhas, BA (Fonte: Arquivo Pessoal Sileide Campos)

Em sua participação na Campus Party 2015, Sileide levou um projeto de Automação Residencial, onde o foco era fornecer tecnologia para as classes C e D. Este projeto foi apresentado no Stand do SEBRAE, porém era de votação popular. Como recebeu poucos votos pelo público, não recebeu premiação. Uma motivação maior foi quando Sileide teve sua ideia reprimida por um dos empresários que vendia sistemas: “…O mesmo fez questão de abordar que a nossa ideia de fabricar e fornecer essa tecnologia para classes C e D não era boa e que nunca iríamos conseguir vender ou até mesmo atingir o nível de uma empresa e que era melhor desistir; Isso revolta qualquer um, certo? Mas só me estimulou a continuar!”. Isto motivou Sileide a ter um espírito empreendedor.

Em Setembro de 2015, Sileide participou do Concurso Casa Conectada, promovido pelo Embarcados, onde garantiu o 3º lugar com o projeto Irrigação Consciente.A irrigação é uma atividade que consome 70% da água mundial. Então seu projeto visou monitorar as áreas irrigadas e variáveis como temperatura do ar, umidade do solo e ar, visando a quantidade necessária de água daquela área. Composto de hardware e software , ela explica ambas: “A parte hardware fiz com a placa fornecida pela organização do concurso, uma Freescale FRDM-K54F e um shield, que eu desenvolvi no proteus que mesclava RTC, bluetooth, relé e alguns sensores. A parte de software foi desenvolvida na forma de App voltado para clientes mobile e desktop desenvolvido em Delphi com banco de dados SqLite.”

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Figura 8 – Projeto de Irrigação Consciente (Fonte: Arquivo Pessoal Sileide Campos)

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Figura 9 – Premiação Concurso Casa Conectada, do Embarcados (Fonte: Arquivo Pessoal Sileide Campos)

Em outubro de 2015, ela participou na Embarcadero Conference como palestrante: “O tema da palestra foi: “Internet das coisas aplicada a melhor utilização de recursos naturais” onde foi mostrado tudo sobre o projeto de app desenvolvido em Delphi. Eu fui a primeira palestrante mulher da história nos eventos da Embarcadero, que desencadeou o pensamento da inserção de mulheres em seus eventos.”. Por uma votação online, a palestra apresentada por Sileide foi uma das primeiras colocadas entre as avaliações da comunidade Delphi.

Sileide participou do Startup Weekend Salvador em novembro de 2015, onde sua equipe garantiu o primeiro lugar: “O projeto lá apresentado é uma solução para facilitar os serviços de impressão que hoje são fornecidos, em sua maioria, por copiadoras, que estão espalhadas pela cidade e são encontradas em diversas faculdades”.

Na mesma época do projeto, Sileide ficou noiva. E como maker, teve um grande diferencial: os aneis foram comprados no DX.E, para espanto de seus pais e sogros: “Trata-se de um anel NFC feito em titanium com pedra de zircônia e que possui duas alocações de memórias distintas e que consegue gravar diversas informações. Queríamos desenvolver algo para usar esta tecnologia além do armazenamento de um mini curriculo e contatos pessoais nele…”

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Figura 10 – Anel NFC comprado na China (Fonte: Arquivo pessoal Sileide Campos)

Na Campus Party 2016, Sileide expos o projeto do Totem de Impressão, iniciado na Startup Weekend Salvador, na área do Sebrae de Empreendedorismo. E lá pode participar da seleção para o programa Pequenas Empresas Grandes Negócios, juntamente com outras três Startups. Eles contariam a história da Startup para a Revista PEGN, porém chegaram atrasados no stand e não houve tempo.

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Figura 11 – Sileide e a equipe do PEGN (Fonte: Arquivo Pessoal Sileide Campos)

Para quem acha que acabou, ainda tem mais! Sileide participa de um projeto social voltado para o ensino de tecnologia e robótica para crianças, chamado Crianças Hackers. Uma vez ao mês, um colaborador fica responsável pela montagem de um projeto, que é apresentado e construído pelas crianças, envolvendo conceitos de Física, Eletrônica, Computação: “Além de praticar uma boa ação, me divirto imensamente pois  é muito legal quando um “Hello World” é feito pela primeira mas ver o sorriso de uma criança e ver seus olhos brilharem por tecnologia, é incrível”.

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Figura 12 – Projeto Crianças Hackers (Fonte: Arquivo Pessoal Sileide Campos)

Atualmente, Sileide faz estágio na área de Sistemas Industriais e está em processo de abertura da empresa relacionada à seu projeto Totem de Impressão. Também está num curso da IBM em parceria com a Apple no projeto Hackatruck, que capacita estudantes de TI em programação Swift para a plataforma iOS.

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Figura 13 – Projeto Hackatruck (Fonte: Arquivo Pessoal Sileide Campos)

Para finalizar, Sileide deixa uma mensagem de incentivo, principalmente às mulheres: “As mulheres sempre estiveram na história ativamente mas os méritos sempre estavam ligados aos homens como a simples invenção das técnicas da agricultura, que foi 100% invenção feminina, que eram as responsáveis por essa atividade. Então, vamos expor o quanto somos capazes de criar, produzir e de mudar o mundo, afinal somos nós as responsáveis pela maioria das tarefas que hoje estão sendo modernizadas; somos nós quem entendemos de como as coisas funcionam e de como elas podem ser melhoradas e facilitadas. E, por mais que digam não, nós sempre seremos as responsáveis pelas melhores mudanças tecnológicas. Ser mulher na área tecnológica é ser incentivada pelo desafio e não há nada melhor do que ouvir: “duvido que você consiga” e mostrar que consegue depois”.

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Figura 14 – Sileide e um braço robótica Kuka na Faculdade Área 1 (Fonte: Arquivo Pessoal Sileide Campos)

Essa mulher tem muita história pra contar: seu lado maker, engenheira e empreendedora nos ensinaram muito. Houveram momentos difíceis, mas com muita persistência, Sileide correu atrás de seus objetivos. E então, ela te inspirou a participar de concursos? Talvez de abrir sua própria Startup ou empresa? Ou talvez, de conquistar sua graduação? Ou até de participar de projetos para auxiliar pessoas, sejam elas homens, mulheres ou crianças a ingressarem na tecnologia? Espero que sim, assim como me inspirou quando escrevi sobre ela, que você seja inspirado ao conhecer a Sileide.

Ainda há mais histórias por vir! Você é mulher e possui uma trajetória maker? Ou você conhece uma garota que faz projetos com Arduino, Raspberry Pi e outros embarcados? Te convido a escrever pra gente! 😉

By | 2017-01-27T23:08:02+00:00 Abril 29th, 2016|Artigos|0 Comments

About the Author:

Mestranda em Automação e Controle de Processos, Engenheira de Controle e Automação, Técnica em Automação Industrial, ambos pelo IFSP. Atualmente trabalha como Montadora na Tudela Indústria. Pesquisadora no LABORE (Laboratório de Robótica e Reabilitação do IFSP). Hobbista e Maker, se interessou por Arduino desde 2013, e realizou projetos na área de Wearables voltados para entretenimento. Já realizou palestras e mini cursos em eventos de IoT, Arduino e Tecnologia, no RJ, PE, SP, DF, RS, CE, SC e GO. Articulista do Portal Embarcados, redige artigos sobre Arduino e mulheres na tecnologia. Fã de Angry Birds :D

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